O apelo crescente da nicotina: além do vício, o que dizem a ciência e os riscos?

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As tendências de bem-estar estão a impulsionar um aumento no consumo de nicotina, mas não no sentido tradicional. Adesivos, bolsas e até bebidas com infusão de nicotina estão sendo agora elogiados por influenciadores e biohackers como ferramentas para perda de peso, aumento de concentração e desempenho atlético. Embora a natureza viciante da nicotina e os riscos estabelecidos para a saúde sejam bem conhecidos, uma comunidade crescente está a explorar os seus potenciais benefícios – e a ciência é surpreendentemente matizada.

Como a nicotina afeta o corpo

A nicotina é um potente estimulante que inunda o centro de recompensa do cérebro com dopamina, criando sentimentos de prazer e conduzindo a um comportamento viciante. O corpo se adapta rapidamente, necessitando de mais nicotina para obter o mesmo efeito. Além do vício, a nicotina desencadeia a liberação de adrenalina, aumentando a pressão arterial e a frequência cardíaca. Os métodos de administração mais recentes, como bolsas colocadas na boca, contornam as vias de absorção mais lentas (como manchas na pele), proporcionando um efeito mais rápido e intenso.

Essa velocidade é importante porque o corpo metaboliza rapidamente a nicotina; em duas horas, metade da dose acaba, levando os usuários a buscar outra dose. Como explica Jennifer Folkenroth, da American Lung Association, esse ciclo reforça a dependência.

As reivindicações versus a pesquisa

Os influenciadores afirmam que a nicotina pode melhorar o foco, aumentar a energia e até ajudar na perda de peso. Algumas pesquisas sugerem um leve aprimoramento cognitivo – melhor atenção e memória – com a nicotina, mas os efeitos são sutis. Os estudos sobre desempenho atlético são mistos; embora algumas pesquisas mais antigas sugiram que a nicotina sem fumaça pode melhorar a concentração e a resistência, ela também pode prejudicar a força e representar sérios riscos cardiovasculares.

O entusiasmo pela perda de peso é particularmente fraco. Embora a nicotina possa suprimir o apetite em animais, estudos em humanos não confirmaram benefícios significativos na perda de peso.

Mais preocupante, a investigação em fase inicial sugere que a nicotina pode atrasar o declínio cognitivo, mas isto é preliminar e ofuscado pela ligação bem estabelecida entre o tabagismo (e a exposição potencialmente elevada à nicotina) e a doença de Alzheimer.

Os reais riscos para a saúde

Para os não fumantes, as desvantagens da nicotina superam em muito quaisquer benefícios potenciais. O vício é a maior preocupação. Shane Kraus, PhD, da Universidade de Nevada, enfatiza que o poder viciante da nicotina é o motivo pelo qual milhões de pessoas continuam fumando, apesar dos avisos claros.

Além do vício, as bolsas e adesivos de nicotina estão associados a doenças gengivais, lesões na boca, hipertensão e até câncer de garganta. A interrupção do desenvolvimento cerebral em jovens com menos de 25 anos é outro risco grave.

Dados recentes revelam uma tendência assustadora: a ingestão acidental de nicotina entre crianças com menos de 6 anos aumentou 760% entre 2020 e 2023, sendo que estes casos têm duas vezes mais probabilidade de causar problemas médicos graves em comparação com outras exposições à nicotina.

O resultado final

Os produtos de nicotina estão sendo comercializados como atalhos para concentração, energia e perda de peso, mas a ciência está longe de ser conclusiva. Embora a nicotina possa oferecer alguns benefícios cognitivos menores, os riscos – dependência, danos cardiovasculares e envenenamento acidental – tornam estes produtos uma aposta perigosa para a maioria das pessoas. Os especialistas desaconselham fortemente o seu uso, especialmente para aqueles que pararam de fumar ou têm problemas de saúde.

A crescente popularidade das bolsas e adesivos de nicotina é impulsionada pela desinformação e pelas tendências de bem-estar, e não pela ciência sólida. Proceda com extremo cuidado, se for o caso.